21.9.05

Tunguska

Semenow tinha um velho hábito: levantar-se de madrugada, preparar-se para as tarefas do dia na fazenda e, por fim, observar o horizonte, à espera do despontar do sol. Naquele dia, Semenow viu surgirem dois sóis no horizonte: Um deles terrivelmente mortal. Nâo muito longe de sua fazenda; o boiadeiro Luchektan começava a tanger 1 .500 cabeças de gado. Luchektan era de temperamento menos comtenplativo , e para ele o sol tinha uma finalidade meramente utilitária: servia para iluminar e aquecer a Terra. Mas um sol era mais do que suficiente; de bom grado teria dispensado o segundo.

Nenhum daqueles dois homens sabia - na verdade, ninguem sabia - que aquele segundo sol era algo tâo desconhecido quanto fatal. Tudo aconteceu rnuito rapidamente , naquela manhâ de 30 de junho de 1908, e como o agente causador do fenomeno nâo deixou qualquer vestígio, até hoje nâo se tem ainda a noção exata do que se passou naquela regiâo da Sibéria, entre os rios Tunguska e Lena.

Na ocasiâo - e por muito tempo - pensou-se que o local havia sido atingido por um meteoro pesando muitas toneladas. Já na década de 40 e nos anos 60, chegara-se à conclusâo de que nâo era um meteoro, mas também nâo se tinha qualquer eerteza sobre o que teria sido. Fosse o que fosse, ao atingir a Terra liberara energia superior à da mais destruidora bomba de hidrogênio. Atualmente se considera a hipótese de que naquele dia, nosso mundo tenha sido atingido apenas por um grâo de poeira cósmica, algo menor que a cabeça de um alfinete, mas de bilhôes de toneladas. Acrrdita-se que o estranho e ínfimo corpusculo nâo deixou vestígio porqu ao colidir com a Terra à velocidade de 40 mil quilometros horários , ele atravessou o planeta numa fração de tempo e saiu num ponto do Polo Norte rumando novamente espaço afora.

Em termos astronômicos, o fenomeno ---- qualquer que tenha sido --- foi tâo rápido e inconseqüente como se nâo tivesse acontecido . Em termos terrestres e principalmente humano, foi algo tâo terrífico que ainda hoje, passado quase setenta anos; continua deixando perplexo os que procuram entender o que aconteceu naquele dia .

Eram 7 horas da manhã , quando o fazendeiro Semenow, que contemplava o nascer do Sol, viu o céu se iluminar com uma luz fantasmagórica. Um calor sufocante o atingiu e ele ainda pôde ver um segundo sol cortando o céu a grande velocidade. 0 estranho astro desapareceu no horizonte e, antes que Semenow pudesse imaginar o que acontecia uma onda de ar quente o envolveu e o arrancou do solo; a sensaçâo, diria ele depois, era de que estava sendo consumido em chamas. Ao cair de novo no châo, perdeu os sentidos. Voltando a si, ainda atordoado e perplexo demais para pensar, olhou ao redor e levou outro susto: sua casa havia sido volatilizado, e toda a paisagem ao redor apresentava o aspecto de terra arrasada.

0 boiadeiro Luchektan tocava suas reses em meio da penumbra que se dissipava, para dar lugar ao sol que surgia. Subitamente o céu se iluminou, estranha e rapidamente demais para ser normal. Luchektan sentiu o calor de fornalha e a onda engolfante de ar quente. Antes de desmaiar, ainda viu um homem, seu cavalo, vacas e bezerros sendo arrastados. Depois, só havia devastação: algumas carcaças de gado jaziam entre os restos de vegetaçâo arrancada do solo e nada rnais; nenhum outro sinal de vida.

A 750 quilometros dalí , uma locomotiva pontilhava o ar com golfadas de fumaça e vapor, enquanto arrastava a cornposiçâo de passageiros, a maioria dos quais ressonando pesadamente depois de uma noite mal dormida. Alguns rnais despertos ouviram o rumor longinquo, abafado, indistinto. Notaram que o rumor aumentava rápidamente de intensidade; algo como o ribombar de um trovâo que viesse de encontro ao trem. Inesperadamente, os vidros das janelas quebraram- se, cortinas foram arrancadas dos suportes, a madeira estalou e partiu, o trem inteiro sacudiu, pessoas gritaram.

A onda de ar que arrasara a fazenda de Semenow e matara a boiada de Luchektan contiriuava se propagando e destruindo, com força ainda para arrancar dos trilhos um trem que trafegava a centenas de quiIometros do local onde surgiira. No caminho, ela foi secando a àgua de rios e riachos, e produziu um abalo subterrâneo que se propagou além dos limites da Sibéria e da Rússia e que foi registrado pelo sismógrafo de um observatório inglês a mais de 8 mil quilometros de distância. Paralelamente, o observatório astronômico de lrkutsk, situado na Sibéria a poucos quilometros da fronteira com a Mongólia, assinalou inexplicável alteração no campo magnético terrestre.

Cientistas se dirigiram ao local do impacto para examinar os destroços daquilo que seria um provável meteoro, e especialmente para exarninar o seu núcleo, que - acreditava-se - estaria enterrado muitos metros abaixo da cratera que forçosamente teria se formado no ponto de colisâo com a crosta terrestre. Decepçâo constrangedora: ao redor, num raio de 32 quilometros, a floresta ficara inteiramente calcinada e desaparecera todo e qualquer sinal de vida, mas nâo havia um único estilhaço de meteoro, e mais surpreendente ainda, nâo havia nenhuma cratera na area.

À falta de meihor explicaçâo, imaginou-se que o meteoro, ao se aquecer subitamente no atrito com a atmosfera densa, desintegrara-se antes de atingir o solo razão pela qual nâo teria ocorndo a colisão nem se formado a inevitável cratera. Mas outros contestaram esse argumento, afirmando que em tal hipótese, os fragmentos teriam se espalhados nas redondeza e teriam sido localizados, coisa que nâo aconteceu. Afinal, o que teria atingido a Terra naquele dia?

Se fosse um meteoro convencional, que tivesse deixado cratera todos demais vestigios de praxe , o caso teria sido academicamente estudado, catalogado e esquecido. Porém, o mistério que cercou o fenomeno serviu para aguçar a curiosidade dos cientistas, obrigando-os a queimar uma quantidade inusitada de fosfato, na tentativa de solucionar a questâo. Se nâo chegaram a uma conclusâo, pelo menos levantaram várias hipóteses e elaboraram muitas teorias a respeito do fenomeno.

Apesar de os indícios nâo ajudarem, no início prevaleceu a idéia que teria sido mesmo um meteoro agente causador dos danos e abalos naquele 30 de junho. Houve mesmo quem calculasse seu peso: 40 mil toneladas, nem um grama a rnenos Nos anos e décadas seguintes, porém , uma das principais teorias sobre o fenômeno foi a da antimatéria, ou do universo inverso, onde existiriam antiastros, cujos núcleos atômicos seriam identicos, mas opostos aos das galáxias. Nesse quadro, o que se chocou com o solo siberiano, naquela ocasião, não foi um bólido de estrutura atômica conhecida, mas um pequeno fraguemento de antimatéria, possivelmente tamanho de uma bola de pingue-pongue.

0 contato do fragmento de antimatéria com a superfíce terrestre teria provocado imensa explosâo, que liberou energia superior a qualquer bomba então conhecida. Essa teoria, lançada em meados da década da passada pelos físicos C. Atluri e Clyde Cowan, pareceu fantástica entâo, mas nâo tanto quanto à lançada no final de 1976 pelos cientistas soviéticos Vladimir Stulov e Georgi Petrov. Segundo eles, o misterio fenomeno siberiano foi provocado por uma gigantesca bola de neve, remanescente do núcleo de um cometa.

0 bólido de neve, desenvotvendo uma velocidade de 40 mil quilometros horários, penetrou na atmosfera terrestre e, graças à sua baixíssima temperatura, manteve-se incolume até chegar à altitude de 80 quilometros. A partir daí, à medida que o caía, maior se tornou o atrito corn as camadas mais densas de ar, produzindo uma coluna incandescente. Por fim, o rápido e intenso aumento de calor provocou a desintegração da esfera de gelo; resultando uma explosâo tâo potente que arrasou toda a espécie de vegetação num raio de dezenas de quilometros, produziu danos a centenas de quilometros e foi ouvida em regiões muito distantes.

Mais recente que a teoria da bola de neve a do "buraco negro" , apresentada pelos físicos norte-americanos A. A. Jackson e Michael Ryan Jr., ambos da Universidade do Texas. 0 grande problema dessa tese é que a ciência nâo sabe o que são os chamados "buracos negros" existentes no céu. Tudo o que existe até agora sobre esse fenômeno sideral sâo conjecturas.

Explicar o incompreensível por meio de algo desconhecido nâo faz sentido. Aliás, na própria palavra buraco está implícita a idéia de inexistência. Entâo, nosso planeta teria sido atingido por algo que nâo existe? "Buraco negro" é uma regiâo do céu onde aparentemente nâo existe nada, exceto a tal negritude que lhe dá o nome, mas de onde ; provem poderosas emissões de raios X perfeitamente captáveis na Terra. Várias hipóteses têm sido levantadas na tentativa de explicar o que sejam esses pontos do espaço. Segundo uma delas, os "buracos negros" sâo astros constituídos por antimatéria de estrutura nuclear inversa à da matéria comum, o que os torna invisiveis aos nossos olhos. Se isso for correto estaria certa a teoria de Atluri e Cowan de que a desintegraçâo de um corpo sideral de antimatéria ocorrida em era remota teria lançado fragmentos por todo o espaço, um dos quais acabou se chocando com a Terra.

De acordo com outra hípotese, os "buracos negros" sâo corpos celestes formados de uma mátéria tão densa e tâo extraordinariamente brilhante que os seus raios estarianü situados numa faixa nâo perceptível aos nossos olhos . Daí a razâo pela qual, nos pontos do espa,co ocupados por eles; tem a impressâo de que há uma espécie de vácuo ou buraco. Impressão falsa, corno o demonstram fortes ondas de rádio procedente desses pontos . Os físicos Jackson e Ryan Jr. inclinam-se por ess teoria ao dizer que o vale entre as bacias do Tunguska e do Lena teria sido atingido por um fragmento de "buraco negro" menor que a cabeça de um alfinete, mas pesando bilhões de toneladas em virtude de sua densi dade.

Esse micrometeoro, ao penetrar na atmosfera terrestre, teria provocado ondas de choque e produzido uma coluna incandescente e azulada extremamente quente, ao se deslocar È velocidade de 40 mil quilômetros por hora. Simples grâo de poeira cósmica, penetrou no solo sem deixar vestígio, atravessou o planeta e continuou sua viagem sem rumo e sem fim pelo universo. Segundo os físicos americanos, nâo foi o impacto com o solo que cau sou o cataclismo e sim a deflagração de ondas de choque decorrentes do aquecimento súbito da atmosfera no ponto em que surgiu a coluna ígnea gerada pelo deslocamento do corpúsculo.

Teoria ousada, sem dúvida, mas não destituida de fundamento Para apoiá-la, os dois cientistas estudaram os depoimentos de testemunhas da época: Velhos moradores de Tunguska recordararn-se de que naquela manhã tiveram sua atençâo despertada põr uma sucessão de explosões vindas do céu. Olhando para cima, virarn uma longa e fina coluna de fogo ázulado riscando o firmamento de alto a baixo, ao mesmo tempo que um trovão intermitente e profundo parecia abaIar o próprio mundo. Até que a faixa incandescente atingiu a Terra em algum ponto além do horizonte, deixando atrás de si a terra queimada e arrasada.

Ao lado dessas teorias , todas plausiveis embóra discutíveis; há os que vêem naquele fenôrneno nada mais do que uma explosáo nuelear; de potência ignorada, na época como agora. Acontece que a primeira bomba atômica construída pelo Homem explodiu à 16 de julho de I945, ou seja, 37 anos depois e, ainda assim, a energia liberada peto artefato deflagrado em Alamogordo, nos Estados Unidos, equivalia a 20 mil toneladas de dinamite, bem inferior à explosão ocorrida em Tunguska.

A conclusão é inevitável: se o fenômeno observado naquela regïão siberiana foi o resultado de uma deflagração nuclear, tem-se necessáriamente de admitir que esta terá sido provocada por uma inteligência extraterrestre. Mas por quem e por quê? Duas hióteses procuram explicar o que teria ocorrido. Uma delas, apresentada pelo professor Liapunov, da União Soviética, diz que um aparelho vindo de outro planeta, impulsionado a energia nuclear, teria sofrido uma pane, se desgovernado e precipitado a uma velocidade vertiginosa, provocando a incandescência da nave pelo atrito com a atmosfera . Não se encontrou nenhum vestígio na área por que o combustível atomico se desintegrou ao explodir ao choque contra o solo, volatilizando aparelho e tripulantes.

A segunda hipótese , recebida com reservas mesmo pelos que defendem a existência de seres extra-terrenos inteligentes, afirma que o estranho objeto que explodiu na Terra foi urn míssel disparado de outro planeta, acidental ou propositadamente.

Bomba atômica fabricada na Terra, aparelho acidentado ou míssil extraterrestres , a hipótese de explosão nuclear ganhou certo peso depois que pesquisas realizadas por cientistas norte-americanos , em meados da década passada, revelaram que , após a explosão de 1908 , houve um aumento elevado de radioatividade na atmosfera, conforme análises feitas em amostras vegetais da época. Mas nem isso leva a uma conclusão definitiva.

E a duvida permanece: cometa , meteoro , particula de anti-matéria, "buraco negro", disco voador , ou o quê?

Por enquanto, só uma certeza : alguma coisa explodiu na Terra naquela manhã de 1908 e até hoje ninguém sabeo o que foi.

Diga-se que vêm a propósito a seguinte noticia em http://www.tsf.pt/online/ciencia/interior.asp?id_artigo=TSF153216

CIÊNCIA Descobertos destroços de nave extra-terreste, segundo russos Cientistas russos afirmam que encontraram os destroços de uma nave espacial extra-terrestre que se despenhou em 1908 em Tunguska, na Sibéria, anunciou quarta-feira à noite a agência noticiosa Interfax. ( 10:19 / 12 de Agosto 04 )

Os cientistas, ligados ao Fundo do Fenómeno Espacial de Tunguska, encontraram também no local uma pedra de 50 quilos que levaram para análise em Krasnoyarsk, na Sibéria.

O cataclismo de Tunguska, ocorrido numa zona desértica da Sibéria, continua a constituir um dos maiores mistérios científicos do século XX.

A 30 de Junho de 1908, o que se julga ter sido um meteorito explodiu a alguns quilómetros de Tunguska, provocando uma onda de choque sentida em centenas de quilómetros em redor e desvastando uma zona de dois mil quilómetros quadrados de floresta siberiana.

A natureza exacta do corpo que explodiu e a sua origem continuam um verdadeiro mistério.

(fonte agência lusa)

1 comentário:

contador de histórias disse...

mto bom esse post, fiquei muito interessado pelo assunto quando o vi no Arquivo X